Entrelinhas XVIII
O que chamou a atenção nos últimos dias
A Tragédia Pessoal e a vergonha
Muito impressionado com a leitura de Um Hino à Vida, autobiografia de Gisèle Pelicot, a francesa que, por anos, foi sedada pelo marido e estuprada por dezenas de homens. A ideia de que “a vergonha precisa mudar de lado”, concretizada em sua decisão de abrir mão do direito ao anonimato no julgamento e, mais que isso, de tornar pública sua história, é um catalisador poderoso de mudanças políticas e sociais. É bizarro o quanto naturalização da misoginia faz parte de nosso cotidiano. Gisèle faz algo importante demais para meninas como Fernanda, minha filha — hoje com nove anos —, e que poderão, quem sabe, crescer mais protegidas e seguras. Espero que Fernanda leia daqui a algum tempo, quando estiver madura o suficiente, a história de Pelicot, e que a tome como um exemplo de grande mulher.
A Tragédia dos Vulneráveis
Assisti, nos último dias, a Emergência Radioativa, a minissérie da Netflix, produzida pela Gulane e dirigida por Fernando Coimbra, baseada na história da tragédia do Césio-137, em Goiânia, em 1987.
Como com tudo, o debate é estridente e ruidoso. Aqui em Goiânia, há críticas pelo fato da série não ter sido filmada na cidade e não contar com roteiristas e profissionais locais. É um ponto de vista legítimo, mas cabe lembrar que não se trata de um documentário, onde questões éticas assim se tornam mais óbvias. Não somos donos das nossas histórias — qualquer um pode recontá-las e arcar com a responsabilidade disso.
Há, nesse caso, claro, questões que fazem sentido, relacionadas ao apagamento e à dificuldade de se criar memória sobre um evento coletivo traumático — algo especialmente cruel por diminuir a imensa dor e o drama humano envolvidos para as vítimas. Já falei sobre isso aqui. Nesse sentido, com todos os seus defeitos, Emergência Radioativa tem méritos.
A série consegue justamente trazer para os holofotes a tragédia das pessoas — todas pobres — e mostrar como foi fruto dos aspectos mais cruéis da desigualdade social, que deixa certos indivíduos em posição de extrema vulnerabilidade enquanto assegura a outros proteção e liberdade de escolha. A tragédia do Césio carrega também consigo aspectos relacionados à ciência e aos riscos da energia nuclear, mas é sobretudo uma tragédia da desigualdade social.
Vale ainda elogiar o elenco da série, com destaque para o excelente Paulo Gorgulho, no papel do físico Benny Orenstein, que consegue insuflar vida mesmo em diálogos muitas vezes mal escritos e que soletram para o espectador os sentidos que o drama deveria mostrar e fazê-lo inferir.
Como bem-vindo efeito colateral, que ajuda também a compor o debate, a discussão despertada por Emergência Radioativa levou o Governo de Goiás a enviar projeto de lei à Assembleia Legislativa dobrando os valores das pensões pagas às mais de 600 vítimas do acidente. A arte não deve se pautar pela política — essa é minha opinião antiquada —, mas produz efeitos políticos, e isso é fundamental.
Em termos negativos, por outro lado, a opção pelo melodrama empobrece justamente a complexidade de uma tragédia que envolve múltiplas contradições e dimensões — a humana, a política, a econômica e a técnico-científica. Deu vontade de rever Chernobyl, a minissérie da HBO, cujo paralelo com Emergência Radioativa é inevitável. Ali, pelo que me lembro, as ambivalências dos personagens não são atenuadas, os conflitos não encontram solução fácil e o drama não produz redenção.



