Entrelinhas XIX
O que chamou a atenção nos últimos dias

Entre a Ucrânia e Goiânia, os riscos da tecnologia
Atropelado por uma virose e motivado pelo frisson de Emergência Radioativa, que comentei rapidamente por aqui, revi Chernobyl. Que série! — e como evidencia as grandes limitações de sua parente brasileira sobre o Césio-137. É um drama monumental, que sabe trançar os fios de sua narrativa para, a partir do acidente na Ucrânia, revelar toda a União Soviética e a humanidade. Vai do micro ao macro com uma naturalidade narrativa impressionante.
Do lado de cá, Emergência Radioativa é um melodrama que tem o mérito de resgatar a dimensão humana de uma tragédia cada vez mais esquecida. Todavia, sua opção dramatúrgica apequena a dimensão do que aconteceu em Goiânia e não consegue justamente conectar os eventos dessa tragédia, da forma que mereceria, à política e à sociedade brasileiras — o acidente com o Césio passa como mera negligência de pessoas ruins e não como algo resultante de uma triste e complexa teia de fatores próprios da modernidade e do Brasil: riscos socializados e lucros privatizados, tecnologias não supervisionadas, vulnerabilidade extrema em função da desigualdade, negligência institucionalizada, etc.
Duas forças adicionais de Chernobyl são a construção trágica da dupla de protagonistas e o impacto devastador das pequenas histórias.
O vice-primeiro-ministro Boris Shcherbina e o cientista Valery Legasov, representados pelo enormes Stellan Skarsgård e Jared Harris, responsáveis pela contenção de danos e descontaminação, são dois personagens que, ao mesmo tempo, atingem seu ápice e são destruídos por Chernobyl — com plena consciência dessa condição. Mais que isso, foram personagens reais. Legasov se suicidou dois anos depois em meio à pressão política e censura do regime comunista diante de suas críticas às falhas de segurança; Shcherbina morreu em 1990, apenas quatro anos após o acidente, muito possivelmente em decorrência dos efeitos da radiação.
As pequenas histórias, pelo que consta, devem muito a Vozes de Tchernóbil, livro da prêmio Nobel Svetlana Alexijevich, que é uma polifonia documental a partir de centenas de testemunhos de sobreviventes. É dela o relato da história de Lyudmila Ignatenko, encarnada por Jessie Buckley, esposa do bombeiro Vasily, que trabalhou no socorro ao acidente e morreu contaminado pela radiação. E há também a singela, e ao mesmo tempo pesada, história do jovem Pavel, recrutado para matar animais contaminados.
Vale muito rever (e vale sim assistir a Emergência Radioativa, apesar de seus defeitos).


